quarta-feira, 8 de junho de 2016

Análise de personagem: Tio Cosme, Dom Casmurro

De 2014 para Literatura Brasileira.

            A começar pelo nome. Tio Cosme, pode ser uma referência ao “cosmos”, ao universo e seu estudo, pela valorização do racional e da ciência.
            Tio Cosme é um personagem não só com tendências liberais, mas que valoriza muito o racional, como pode ser visto no trecho: “São imaginações do José Dias; os pequenos divertem-se, eu divirto-me; onde está o gamão?”. Sobre os pequenos estarem pelos cantos, enquanto todos se opunham, essa era a opinião dele. E o gamão, jogo de tabuleiro jogado desde a Idade Média, onde valoriza-se o raciocínio para vencer o jogo, geralmente jogado pela elite.
            Outro trecho deixa mais explícita a tendência liberal, no momento seguinte da mesma discussão acima. Ele refuta o argumento da promessa de D. Glória de tornar Bentinho padre. “-Sei que você fez promessa... mas uma promessa assim... não sei... Creio que, bem pensado... Você que acha, prima Justina?” e concluiu com “-Verdade é que cada um sabe melhor de si, (...) Deus é que sabe de todos.”
            Cosme apresenta durante a obra, imparcialidade. Não tenta favorecer um mais do que o outro, geralmente são opiniões embasadas no melhor a se fazer. Durante uma memória sobre o Tio, Bentinho assim o lembra “Também não me esqueceu o que ele me fez uma tarde. Posto que nascido na roça (...), eu não sabia montar, e tinha medo ao cavalo. Tio Cosme pegou em mim e escanchou-me em cima da besta. (...) entrei a gritar desesperadamente: ‘Mamãe! Mamãe!’ Ela acudiu, (...) cuidou que me estivessem matando.
-Mana Glória, pois um tamanhão destes tem medo de besta mansa?
-Não está acostumado.
-Deve acostumar-se. Padre que seja,(...) é preciso que monte a cavalo; e, aqui mesmo, (...) se quiser florear como os outros rapazes, e não souber, há de queixar-se de você.”
            Neste caso específico cuidou pelo melhor do menino. O personagem apresenta boa lógica e visão das coisas, trata de maneira real como tudo deveria ser.
            Este personagem se encaixa na lógica realista, além do racional apresentado, pela desilusão das coisas da mocidade da vida, características pertinentes ao movimento romântico. Como podem ser vistas em “Já não dava para namoros. Contam que, em rapaz, foi aceito de muitas damas, além de partidário exaltado; mas os anos levaram-lhe o mais do ardor político e sexual, e a gordura acabou com o resto das ideias públicas e específicas”, pode-se afirmar então que Tio Cosme é um pós-romântico, ensinado pela vida e desencantado por tal.
            Tio Cosme tem também certa afeição à política, como dito no trecho anterior, e numa passagem mais ao início da obra, em resposta a uma citação de José Dias, “-Governo como a cara dele! Atalhou tio Cosme, cedendo a antigos rancores políticos”. O engajamento, ou preocupação com a política é também característica romântica, assim como os ideais liberais do tio.
            Há uma fala de prima Justina que afirma a despreocupação de Cosme com a igreja, ressaltando assim a sua valorização do racional. Durante a conversa de Bentinho sobre vida de padre e ordenação, sobre quem se importa com a vida religiosa “Primo Cosme não é, que não se importa com isso; eu também não”.
            Tio Cosme ensinou gamão para Capitu, uma das, se não a mais, racionais personagens da história.
            No capítulo O Protonotário Apostólico, quem admirava o novo título do padre era Cosme e Justina, os que menos se importavam com a religiosidade, mas apesar disso, sabiam dos prestígios sociais que o cargo traria. Cosme em sequência diz “-Prepara-te, Bentinho; tu podes vir a ser protonotário apostólico”, ele sabendo da convicção da irmã pela promessa, neste momento a imparcialidade, já que teria de ser padre, por que não um cargo de mais valia? Noutro trecho, da partida de Bentinho ao seminário, Tio Cosme vai além de protonotário e diz para o menino “-Anda lá, rapaz, volta-me papa!”. Novamente a pretensão de cargo de importância para o menino.
            Cosme mostra-se também coerente quando confrontando opinião de D. Glória, ao dizer que assustaria chamar o garoto apenas por causa de uma febre, que é coisa passageira.
            Do mais, Tio Cosme apenas dava opiniões inteligentes, porém superficiais.
            Passou a padecer do coração e descansar. Coincidentemente quando a paranoia de traição começou, possivelmente simbolizando o fim do racionalismo de Bentinho.
            Cosme acabou tomando a posição de padrinho de Ezequiel, e quis um batismo rápido, pois tinha consciência de sua doença, disse com convicção e sem meias palavras de lamentos, dignas do racionalismo.

            Um ponto interessante da obra é não citar a morte de Tio Cosme, talvez por estimular a percepção do leitor para trivialidades, ou deixar de simbolizar a morte de um personagem que carregou durante toda a obra um caráter liberal e racionalista, como quem tem ainda esperanças no racionalismo.

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