A começar pelo nome. Tio Cosme, pode
ser uma referência ao “cosmos”, ao universo e seu estudo, pela valorização do
racional e da ciência.
Tio Cosme é um personagem não só com
tendências liberais, mas que valoriza muito o racional, como pode ser visto no
trecho: “São imaginações do José Dias; os pequenos divertem-se, eu divirto-me;
onde está o gamão?”. Sobre os pequenos estarem pelos cantos, enquanto todos se
opunham, essa era a opinião dele. E o gamão, jogo de tabuleiro jogado desde a
Idade Média, onde valoriza-se o raciocínio para vencer o jogo, geralmente
jogado pela elite.
Outro trecho deixa mais explícita a
tendência liberal, no momento seguinte da mesma discussão acima. Ele refuta o
argumento da promessa de D. Glória de tornar Bentinho padre. “-Sei que você fez
promessa... mas uma promessa assim... não sei... Creio que, bem pensado... Você
que acha, prima Justina?” e concluiu com “-Verdade é que cada um sabe melhor de
si, (...) Deus é que sabe de todos.”
Cosme apresenta durante a obra,
imparcialidade. Não tenta favorecer um mais do que o outro, geralmente são
opiniões embasadas no melhor a se fazer. Durante uma memória sobre o Tio,
Bentinho assim o lembra “Também
não me esqueceu o que ele me fez uma tarde. Posto que nascido na roça (...), eu
não sabia montar, e tinha medo ao cavalo. Tio Cosme pegou em mim e escanchou-me
em cima da besta. (...) entrei a gritar desesperadamente: ‘Mamãe! Mamãe!’ Ela
acudiu, (...) cuidou que me estivessem matando.
-Mana Glória, pois um tamanhão destes
tem medo de besta mansa?
-Não está acostumado.
-Deve acostumar-se. Padre que
seja,(...) é preciso que monte a cavalo; e, aqui mesmo, (...) se quiser florear
como os outros rapazes, e não souber, há de queixar-se de você.”
Neste caso específico cuidou pelo
melhor do menino. O personagem apresenta boa lógica e visão das coisas, trata
de maneira real como tudo deveria ser.
Este personagem se encaixa na lógica
realista, além do racional apresentado, pela desilusão das coisas da mocidade
da vida, características pertinentes ao movimento romântico. Como podem ser
vistas em “Já não dava para namoros. Contam que, em rapaz, foi aceito de muitas
damas, além de partidário exaltado; mas os anos levaram-lhe o mais do ardor
político e sexual, e a gordura acabou com o resto das ideias públicas e
específicas”, pode-se afirmar então que Tio Cosme é um pós-romântico, ensinado
pela vida e desencantado por tal.
Tio Cosme tem também certa afeição à
política, como dito no trecho anterior, e numa passagem mais ao início da obra,
em resposta a uma citação de José Dias, “-Governo como a cara dele! Atalhou tio
Cosme, cedendo a antigos rancores políticos”. O engajamento, ou preocupação com
a política é também característica romântica, assim como os ideais liberais do
tio.
Há uma fala de prima Justina que
afirma a despreocupação de Cosme com a igreja, ressaltando assim a sua
valorização do racional. Durante a conversa de Bentinho sobre vida de padre e
ordenação, sobre quem se importa com a vida religiosa “Primo Cosme não é, que
não se importa com isso; eu também não”.
Tio Cosme ensinou gamão para Capitu,
uma das, se não a mais, racionais personagens da história.
No capítulo O Protonotário
Apostólico, quem admirava o novo título do padre era Cosme e Justina, os que
menos se importavam com a religiosidade, mas apesar disso, sabiam dos
prestígios sociais que o cargo traria. Cosme em sequência diz “-Prepara-te,
Bentinho; tu podes vir a ser protonotário apostólico”, ele sabendo da convicção
da irmã pela promessa, neste momento a imparcialidade, já que teria de ser
padre, por que não um cargo de mais valia? Noutro trecho, da partida de
Bentinho ao seminário, Tio Cosme vai além de protonotário e diz para o menino
“-Anda lá, rapaz, volta-me papa!”. Novamente a pretensão de cargo de
importância para o menino.
Cosme mostra-se também coerente
quando confrontando opinião de D. Glória, ao dizer que assustaria chamar o
garoto apenas por causa de uma febre, que é coisa passageira.
Do mais, Tio Cosme apenas dava
opiniões inteligentes, porém superficiais.
Passou a padecer do coração e
descansar. Coincidentemente quando a paranoia de traição começou, possivelmente
simbolizando o fim do racionalismo de Bentinho.
Cosme acabou tomando a posição de
padrinho de Ezequiel, e quis um batismo rápido, pois tinha consciência de sua
doença, disse com convicção e sem meias palavras de lamentos, dignas do
racionalismo.
Um ponto interessante da obra é não
citar a morte de Tio Cosme, talvez por estimular a percepção do leitor para
trivialidades, ou deixar de simbolizar a morte de um personagem que carregou
durante toda a obra um caráter liberal e racionalista, como quem tem ainda
esperanças no racionalismo.
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