terça-feira, 4 de outubro de 2016

Um artista da fome (1922)

A narrativa é em seu todo uma metáfora para a Literatura em contraposição às Artes Modernas e à falência da educação. O conto nos leva para o início do século XX, e com ele, a transição de movimento artístico na Europa, diga-se o início do Modernismo Europeu e o engatinhar do Cinema, sem contar os relances da modernidade na própria sociedade.
Compreender a relação entre o jejuador/escritor, arte da fome/literatura é essencial para o entendimento da obra, já que é a "chave" para todas as outras metáforas e passagens do conto.


Após observar a construção das figuras utilizadas pelo autor, nota-se que o jejuador remete ao escritor, e este, sempre será descrito em situação miserável, mesmo em seu "auge" em épocas passadas. Embora miserável, Kafka descreve o jejuador como um guardião da sua arte, que tenta a todo momento não só defender, mas também justificá-la.

O jejuador tenta a todo custo se fazer visto, para que assim, faça retornar a apreciação à sua arte, mesmo sabendo que não lhe dão mais valor e está sendo abandonado, e, os únicos que ainda param para observá-lo, o fazem apenas para contestar. Cita em diversos momentos a incapacidade das pessoas em compreenderem sua arte, e um trecho muito interessante sobre isso é o seguinte (lembrando que a fome é a figura para a literatura):
"E se alguma vez surgia alguém de piedoso ânimo que se compadecia dele e queria fazê-lo compreender que provavelmente sua tristeza provinha da fome, bem podia acontecer, sobretudo se estava já muito avançado o jejum, já que o jejuador lhe respondesse com uma explosão de fúria e, com espanto de todos, começasse a sacudir como uma fera os ferros da jaula. Para tais casos, porém, o empresário tinha um castigo que gostava de empregar. Desculpava o jejuador diante do público reunido, acrescentava que somente a irritabilidade provocada pela fome - irritabilidade incompreensível em homens bem alimentados - podia fazer desculpável aquela conduta."
"Mas desculpar-se por um ato violento é um castigo?". O castigo consiste em negar a ideologia do artista, que suprimido por todas as partes, se vê em condições de não compreender como não compreendem sua arte, e não só a sua, mas também as outras.

Em determinados trechos, passa-nos a ideia de que seu "empresário" o limitava, e tratando-se de Kafka, pode-se muito facilmente relacionar este personagem a uma representação do próprio Estado, e este, acima do indivíduo e controlador das produções artísticas, colaborando assim com a queda do interesse pela dita arte, logo que não se faziam mais avanços.

O autor, deixa-nos ainda mais comentários sobre as novas artes, "Alguns anos mais tarde, se as testemunhas de tais cenas voltavam a recordar-se delas, notavam que se tinham tornado incompreensíveis até para eles mesmos", partindo da subjetividade excessiva e completamente particular dos artistas dos novos movimentos.

No final do conto, fica uma espécie de desabafo ou justificativa, do por quê da arte escolhida; e aí convergem (possivelmente) autor e personagem, ao afirmar que "jejua porque não encontrou comida alguma que o agradasse".

Obs: já num texto de 1922 é comentado o fracasso escolar, "... devido à sua [dos filhos] insuficiente preparação escolar e geral - que sabiam eles sobre jejuar?"

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Muita coisa ainda cabe ser dita sobre este texto, mas no momento não consigo formular comentários sobre o todo, quem sabe futuramente eu retome este conto.
Caso exista discordância em algum ponto, comentários abaixo! Todo debate é válido, além de acrescentar à (breve) análise.

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